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Sosígenes Costa
Caros amigos,
O baiano Sosígenes Costa (1901-1968) deixou uma obra poética que tem um pé fincado
no simbolismo e outro no modernismo. Do lado simbolista, ficaram famosos os
sonetos "pavônicos", nos quais sua imaginação fertilíssima cria bichos
fantásticos. A ave-título do soneto "O Pavão Vermelho", por exemplo, aparece ao
nascer do dia e possui chifre. E mais: substitui outros pavões de estimação, que
eram de cor lilás.
Em outro soneto, "Chuva de Ouro", o que se destaca é a descrição da natureza
esfuziante, numa apoteose de cores e movimentos da vida.
Na faceta modernista, Sosígenes se aproxima da poesia da primeira fase
do movimento. Um exemplo disso é dado aqui por "Duas Festas no Mar", um poema
que mistura Marx, Freud e a mitologia popular.
O trabalho modernista mais destacado de Sosígenes é "Iararana", um longo
poema épico-regionalista (a região, no caso, é o sul da Bahia, a área do cacau,
onde nasceu o poeta) que vai no mesmo rumo de Macunaíma (Mário de
Andrade), Cobra Norato (Raul Bopp) e Martim Cererê (Cassiano
Ricardo).
Para a reunião da poesia de Sosígenes Costa contou sobremaneira o trabalho do
poeta e crítico
José Paulo Paes, que organizou sua publicação, em 1978 e 1979, e também lhe
dedicou estudos críticos. Em 2001, centenário de nascimento do poeta, seus versos foram reunidos num volume único, Poesia Completa, publicado
pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia.
Um abraço,
Carlos Machado
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AS ROSAS NÃO FALAM
Este poema está no Lira dos Cinqüent'Anos, livro de Manuel Bandeira
publicado em 1940:
O EXEMPLO DAS ROSAS
Uma mulher queixava-se do
[ silêncio do amante:
– Já não gostas de mim, pois não
[ encontras palavras para
[ me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que
[ lhe morria no seio:
– Não será insensato pedir a esta
[ rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu
[ perfume?
*
Será que o velho Angenor de Oliveira, o Cartola, leu este poema de Bandeira
antes de compor a música "As rosas não falam"?
Essa hipótese é, no mínimo, plausível. Havia um comércio de simpatia entre
figuras como Bandeira e Drummond e os sambistas cariocas. Martinho da Vila até
fez, nos anos 70, um
samba-enredo chamado "Sonho de um Sonho", que é decalcado no poema homônimo de
Drummond. Drummond homenageou Cartola numa crônica. Bandeira certa vez escreveu
que um verso de Carlos Cachaça (concunhado de Cartola) era uma obra-prima:
Semente de amor sei que sou desde nascença ("Não quero mais" - Zé da
Zilda/ Cartola/ Carlos Cachaça).
Sabe-se, também, que Cartola lia poesia. Então, está aí o caldo de
relacionamentos que nos permite
supor que o compositor mangueirense leu o poema de
Bandeira. E, se leu, ponto para ele.
O que você acha?
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A sereia que leu Marx e Freud
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Sosígenes Costa |
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O PAVÃO VERMELHO
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
(1937-1959)
CHUVA DE OURO
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai ficando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas nos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
DUAS FESTAS NO MAR
Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.
Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.
E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.
Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.
Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.
E houve outra festa no mar.
(1934)
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