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Jorge de Lima
Caros,
O médico e poeta alagoano Jorge de Lima (1893-1953) é dono de
uma das obras mais profundas e, ao mesmo tempo, menos exploradas da poesia
brasileira. Com um tom marcadamente enigmático e místico, seu texto exibe
apurado rigor e requer leitura cautelosa.
Por causa dessa dificuldade, praticamente só se conhece o Jorge de Lima mais
palatável, de poemas como "Essa Negra Fulô" e "G.W.B.R", bem marcados pelo
espírito do primeiro modernismo, nos anos 1920. No entanto, na década seguinte,
a partir do livro Tempo e Eternidade (1935), escrito em parceria com o
mineiro Murilo Mendes, Jorge de Lima dá início a essa fase
mais densa que define a maior parte de seu trabalho.
Católico — mas não carola, porque seu elevado nível de elaboração poética passa
a quilômetros de um versejador papa-hóstia —, ele se torna um mestre da
poesia metafísica.
O texto ao lado é o bloco 25 do longo poema "Anunciação e Encontro de Mira-Celi",
publicado no livro Obra Poética, em 1950. Ao folhear um álbum de
retratos, encontra-se uma família cheia de mistérios, violências, incestos... Na
opinião do crítico e poeta Mário Faustino, se esse texto tivesse sido escrito
originalmente numa língua mais divulgada, já seria o suficiente para inscrever
Jorge de Lima entre os grandes poetas internacionais do século 20.
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O poema "O Grande Circo Místico", de Jorge de Lima, inspirou o balé de mesmo
nome, que tem música de Edu Lobo e Chico Buarque.
Um abraço,
Carlos Machado
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Álbum de família
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Jorge de Lima |
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AS PESSOAS DE MIRA-CELI
25.
O avô tinha sido um ancião convencional,
que se enterrou de sobrecasaca, e polainas;
e a avó
— uma
menina pálida que morreu ao pari-la;
o pai fez algumas baladas;
contam que tinha uma luneta para olhar ao longe.
Daí —
a mão dobra a página do livro,
e a história da tetraneta finda com uma estocada no
[ ventre:
há destinos travados, lenços quentes de lágrimas,
algum incesto, uma violação sobre um sofá antigo.—
Quando a mão dobra a página, há rastros de sangue
[ no soalho.
Esta é a mais nova das cinco.
Veja que os seios são como neve que nós nunca
[ vimos
e ninguém nunca viu o pai que lhe fez um filho;
e o filho desta menina é este moço de luto.
Agora vire a página e olhe o anjo que ele possuiu,
veja esta mantilha sobre este ombro puro,
e estes olhos que parecem contemplar as nuvens
através da luneta avoenga. Veja que sem o fotógrafo
[ querer
as cortinas dão a impressão de caras
[ impressionantes
por detrás da gravura: um estudante de cavanhaque
[ e outro de capa.
Repare bem o braço que ninguém sabe de onde
circunda o busto da moça e a quer levar para um
[ lugar esconso.
Fixe bem o olhar com o ouvido à escuta para
[ perceber a respiração grossa,
os gritos, os juramentos... A saia negra parece
[ um sino de luto,
e o decote é a nau que a levou para sempre. E este
[ fundo de água
pode ser o mar muito bem; mas pode ser as
[ lágrimas do fotógrafo
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